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PRISIONEIRO DA ETERNIDADE

14 Março 2009

Estamos de Mudança...




O blog "Prisioneiro da Eternidade" está de mudança para um novo endereço: http://www.prisioneirodaeternidade.blogspot.com/


Todo o conteúdo já foi transferido para ele e em breve novos textos serão postados.


Conto com a costumeira visita de todos vocês e agradeço a compreensão.


Um abraço e nos vemos por lá!!!!

12 Março 2009

Notícia - Possível Crânio de Vampiro É Descoberto


Boa noite prezado visitante. Desculpe pela ausência de novos contos, mas ultimamemente a inspiração está difícil de se apossar de mim e nos poucos momentos em que a encontro dedico_a à continuação da obra Prisioneiro da Eternidade, o segundo volume.
Caso não a conheça sugiro que verifique as primeiras postagens aqui do blog pois elas são os primeiros capítulos da obra.
Em relação ao assunto "vampirismo" vou postar uma notícia que achei bastante interessante a respeito do tema, acredito que gostarão.
Boa leitura!!!
Crânio de possível vampiro do século XVI é descoberto
09 de março de 2009 • 12h32 • atualizado às 14h15

EFE

Uma equipe de cientistas italianos encontrou na Itália uma caveira com um tijolo aparentemente colocado à força dentro da boca, o que indica que se acreditava que o cadáver era de um vampiro. A caveira, de uma mulher, foi encontrada na escavação de uma vala comum onde eram enterradas vítimas de uma epidemia de peste bubônica na ilha de Lazzaretto Nuovo, perto de Veneza, Itália, nos séculos XVI e XVII.
Matteo Borrini, da Universidade de Florença, disse que objetos eram colocados na boca de supostos vampiros na época para impedir que eles se alimentassem dos cadáveres de pessoas enterradas nas proximidades, se fortalecessem e passassem a atacar os vivos.
Borrini, que apresentou suas conclusões na 61ª reunião da Academia Americana de Ciências Forenses em Denver, nos Estados Unidos, disse que, na época da epidemia, muitos acreditavam que a doença era propagada por vampiros.
Marcas de mastigaçãoSegundo ele, na época da epidemia de peste, os coveiros reabriam constantemente a vala para enterrar os corpos de novas vítimas e encontravam cadáveres que eles suspeitavam ser de vampiros.
Os suspeitos costumavam ser identificados por sinais como "marcas de mastigação" no tecido em que os corpos eram envoltos. De acordo com Borrini, estas marcas eram causadas por sangue e outros fluidos corporais que às vezes eram expelidos pela boca dos mortos, fazendo com que o tecido parecesse afundar entre as mandíbulas e romper-se.
Borrini disse que este pode ser o primeiro ritual de "exorcismo de vampiro" confirmado por evidências arqueológicas e analisada com conhecimentos médicos e técnicas forenses. Entretanto, Peer Moore-Jansen, um especialista da Universidade Estadual de Wichita, no Kansas, afirma que encontrou esqueletos similares na Polônia, indicando que a descoberta não é pioneira.
Veneza foi muito afetada pela chamada peste negra, que atingiu a cidade por volta de 1630. Estima-se que a epidemia matou até 50 mil pessoas de uma população de 150 mil.

06 Janeiro 2009

Conto - O Condenado



Amaldiçoo minhas pernas por não terem sido capazes de me libertar daqueles guardas sanguinários. Guardas raivosos buscando um culpado sem se preocupar se aquele que perseguiam era ou não inocente.
Não, não os amaldiçoo, afinal compreendo a raiva que nutria seus corações uma vez que esse mesmo sentimento por diversas vezes já inundou o meu.
Impossível não ser tomado pela ira quando um ente querido seu é morto de maneira tão horrenda como ocorreu com aquela jovem mulher. Aquela jovem, a esposa do governador que trazia em seu ventre o seu primogênito. Ambos debaixo de sete palmos de terra a essa hora.
Definhando lentamente naquela cela fria já a dois dias sem alimento ou água eu remoí aqueles últimos instantes na mata e conjecturei as inúmeras maneiras que me teriam permitido estar distante dali naquele momento. Pernas fracas... pernas de aleijado... malditas pernas... De que me adiantava pensar naquilo estando naquela situação? Nada mais adiantava, apenas aguardar o momento da minha partida.
Não, por mais que eu tenha jurado, ninguém acreditou em minhas palavras. Por mais que eu tenha negado a autoria de tão insana atrocidade não houve uma só alma naquele tribunal que tivesse sido capaz de me dar ouvidos. Não, não fui eu quem tirou a vida daquela mulher e de seu filho.
Mas havia de existir um culpado.
A honra da guarda estava em jogo e o assassino devia ser encontrado a qualquer preço.
Um aldeão sujo e desiludido da vida: o bode expiatório perfeito.
A guarda manteria sua reputação diante de todos.
O governador se sentiria vingado pela morte da esposa e do filho.
O caso seria encerrado quando a última pá de terra fosse jogada sobre o corpo enrijecido enclausurado no fundo de uma cova...
Enquanto ouço o toque dos sinos indicando o derradeiro momento eu não sinto medo, apenas ódio. Não por não crerem em mim pois eu conhecia a minha verdade e isso já me bastava, mas sim por não terem investigado o assassinato de minha mãe com o mesmo empenho quando se deu o ocorrido.
Não sou governador e não pertenço à política. Sou um mero aldeão e por esse motivo a morte da minha honrada mãe não teve importância para quem quer que fosse. Uma morte tão ou até mesmo mais brutal que a daquela jovem e seu filho.
À doze anos, uma senhora septuagenária encontrada empalada por uma vassoura. Tudo indicava horas e horas de sofrimento atroz antes do último espasmo ocorrer. Quem se importou? O Grande Pai protegeu-a em seus braços daquele monstro que tripudiara sobre seu corpo vendo-a definhar lentamente? Onde estava ele naquele momento? Estaria ele presenciando as atrocidades sexuais que os cônegos cometem dia e noite nos mausoléus que chamam de mosteiros e igrejas? Estaria o grande Criador se deleitando com tais atos assim como o fizera na ocasião da morte de minha mãe?
Ouço passos se aproximando apressadamente e por um instante tenho a impressão de ver o vulto terrível da encapuzada cruzar defronte minha cela. Ela aguarda a libertação da minha alma para arrastá-la aos confins do além. O sino já sentenciou: é chegada minha hora.
Ao contrário do que sempre imaginei, não senti medo, mas sim ansiedade. Ansiedade por saber se, estando eu do outro lado da realidade, meu espírito estaria liberto de tudo aquilo que até aquele momento me atormentava.
Sem palavra alguma fui retirado da fria e úmida cela e encaminhado para o pátio.
O olhar de repúdio e asco daqueles homens penetraram em minha pele como uma lança sem fio.
Sou a escória, sou o lixo da sociedade, sou um tumor prestes a ser extirpado...
A multidão enfurecida clama pela minha morte: o monstro deve morrer. Não eu, mas sim aquele que tão terrivelmente tirou a vida daqueles inocentes.
Um monstro e não eu, um mero aldeão. Assassinar aquela jovem, arrancar-lhe do ventre seu filho e fazê-la engolí-lo... causa-me ânsia só em imaginar tal cena.
Por que eu? Não sei dizer. Talvez por não haver na Terra quem chore pela minha morte. Um aldeão solitário cuja morte não importará à ninguém, assim como a da minha mãe pouco importou.
Ao ouvir os urros enfurecidos dos guardas se aproximando de minha humilde moradia algo cochichou em meu ouvido alertando-me que escapasse dali pois corria perigo. Seria minha finada mãe? Assim o fiz, embora tardiamente.
Enquanto seguia rumo à forca encarei a multidão que se acotovelava próxima de mim. Os guardas evitavam que eu fosse agredido embora era evidente em seus olhos que a vontade deles era a de me ver ser devorado vivo por aquelas pessoas.
Identificar o olhar do verdadeiro assassino talvez traria alguma paz ao meu coração. Ele certamente estava entre aquelas pessoas que gritavam ensandecidas para certificar-se que o acusado pelas mortes que causou cumpriria a sentença que à ele cabia.
Nada. Somente gritos. O sentimento parecia o mesmo nos olhos de todos aqueles que clamavam pela minha morte: o ódio.
Subí os degraus de madeira e logo a grossa e áspera corda foi posicionada em meu pescoço. Não esperava salvação alguma, já fazia bastante tempo que não mais acreditava em justiça divina. Que viesse logo a encapuzada buscar-me para que eu fosse de encontro às almas que vagam pelo além. Talvez lá eu conhecesse a paz.
Retribuí o olhar transbordando ódio àqueles insanos sádicos que, como chacais sobre a carniça, ansiavam pelo meu corpo balançando inerte.
Alguém leu minha sentença e o que a motivou. Eu sequer desviei os olhos na direção da voz. Pouco me importava quem lia aquelas mentiras. Ainda procurei na multidão aquele que, caso a tão mencionada justiça divina existisse, estaria em meu lugar naquele instante.
Um estranho silêncio se fez, como se o mundo estacionasse. Mas as pessoas ainda gritavam e gesticulavam. Não ouvia mais nada... teria eu já morrido?
O mais profundo silêncio que presenciei, mesmo que por alguns breves segundos é findado e, ao ouvir o estalo do alçapão abrindo-se sob meus pés, um lampejo de memória me fez entender tudo: minha busca estava sendo em vão. Eu jamais encontraria na multidão o autor das mortes pois ele estava naquele momento com a corda amarrada em seu pescoço.
Eu era o monstro. Sempre fui e sempre serei, apenas não sabia disso ainda.
Como uma besta enfurecida tirei a vida daquela jovem após possuir seu corpo alvo e macio. Empurrei-lhe o filho garganta abaixo para fazê-la calar-se enquanto estocava meu órgão fortemente naquele corpo banhado de sangue e sofrimento. O sangue e o sofrimento: o gozo sublime, o prazer inigualável. Um monstro.
Uma lágrima escorreu furtiva dos meus olhos. Não pela morte da jovem e de seu filho, mas por recordar-me que, também havia sido eu mesmo o assassino de minha mãe. Um rompante de fúria sem propósito, o primeiro de inúmeros que se seguiram. Sem razão de ser, sem controle, seu porquê.
A justiça pode tardar, porém um dia ela chega, ainda que nos conscientizemos disso em nosso último segundo de vida.
Aquele à quem proferi os piores impropérios pela morte de minha mãe mostrou naquele momento que Sua justiça se faz presente sem nunca falhar. Ainda que Ele nos esfregue isso na cara em nosso derradeiro momento fazendo com que nos sintamos ainda piores do que nos sentimos ao longo de nossas vidas.
Toda a verdade fora revelada, porém, não havia mais nada a ser feito.
Antes de ouvir o som do meu pescoço se partindo ainda tive tempo de gritar clamando aos céus:
“Bendito Seja Seu Nome”.
Atônita, a multidão repetiu em uníssono as minhas palavras.
Inspirado na introdução da música Hallowed Be Thy Name da banda inglesa Iron Maiden:
“I'm waiting in my cold cell, when the bell begins to chime.
Reflecting on my past life and it doesn't have much time.
'Cause at 5 o'clock they'll take me to the Gallows pole,
The sands of time for me are running low.”
Tradução.
Bendito Seja Seu Nome.
“Estou esperando em minha cela fria, quando o sino começa a tocar. Reflito sobre minha vida passada, não tenho muito tempo.
Pois às 5 em ponto eles me levarão para a forca,
As areias do tempo para mim estão acabando
.”

27 Dezembro 2008

Conto - Alianças Eternas


“Eram o casal perfeito”, essa era a opinião de todos que conheciam aquele jovem e cativante casal.
O amor e a paixão nasceram desde o primeiro momento em que se viram e não demorou muito para que marcassem o casamento. Cidade pequena, namoro e noivado não costumavam se prolongar para evitar o maldizer do povo, embora o desejo de unirem-se o quanto antes era evidente em ambos.
Eram como almas gêmeas e tinham a absoluta certeza de que o amor que nutriam um pelo outro era eterno e não se cansavam de dizer isso um ao outro no enleve de casal apaixonado às vésperas do matrimônio.
Tudo correu como o planejado. A festa, a viajem de núpcias... tudo havia sido perfeito. O casamento foi o evento do ano daquela pacata cidade do interior.
Cada qual com seus sonhos e desejos e ainda assim tudo se entrelaçava de forma que caminhavam juntos e felizes rumo à um futuro próspero. Era como se tivessem planejado suas vidas já combinando um com o outro. Como se já se conhecessem e soubessem que estariam juntos um dia. Realmente havia algo especial entre eles.
Era evidente que por vezes surgiam algumas diferenças, mas nada muito grave que pudesse abalar o relacionamento. Sempre existem diferenças. Beto tinha o hábito de jogar futebol com os amigos nos finais de semana, o que não agradava de todo sua companheira, Hellen, mas que com o tempo passou a relevar esse fato assim como seu companheiro acostumou-se a acordar no meio da noite vendo a esposa levantar-se para trancar a porta do quarto devido à ter se esquecido de fazê-lo ao deitar-se.
Toalha molhada encima da cama, tubo de creme dental deformado, futebol ao invés da novela e etc. Coisas normais a qualquer casal.
De início tais costumes causavam irritação aos jovens, mas com o tempo acabaram por acostumar-se à eles e já lhes não davam mais importância.
Alguns anos se passaram desde a cerimônia religiosa que os unira e tudo corria maravilhosamente. Familiares e amigos sempre lhes indagavam a respeito da receita utilizada para que mantivessem um casamento tão sólido, feliz e próspero e a resposta era sempre a mesma: “Almas gêmeas são assim mesmo, quando uma pessoa nasce para a outra, não há motivos para desentendimentos.” Nem todos acreditavam nisso, almas gêmeas, mas não conseguiam a tal “receita”, se é que ela realmente existia.
Eram invejados, tanto no bom quanto no mal sentido, mas nada parecia ser capaz de abalar a relação e eles pouco se importavam com as fofocas que por vezes surgiam. Fato normal às cidades pequenas, cuidar um da vida do outro.
Cinco anos haviam se passado até que tocou o telefone no trabalho de Beto e foi-lhe dada a terrível notícia: Hellen havia se acidentado na rodovia que levava à cidade vizinha e estava entre a vida e a morte no hospital de tal cidade, maior e melhor aparelhado.
Foram duas semanas angustiantes e durante todo esse tempo Beto esteve ao lado do leito de sua amada jurando-lhe amor eterno. Inúmeras vezes foram as que ele, entre lágrimas, jurou-lhe amor e fidelidade eternos, comovendo à todos que presenciavam tais momentos. Infelizmente ela não resistiu e veio a falecer.
A pequena cidade parou. Ninguém acreditava em como um casal tão feliz e unido pudesse se separar de maneira tão trágica. Blasfêmias foram proferidas até mesmo pelos mais religiosos diante de tal acontecimento, mas infelizmente nada podia ser feito para mudar a realidade da situação.
Beto emagreceu, empalideceu e pareceu perder a vontade de viver. Hellen era para ele como o ar, como o complemento da sua alma, segundo suas próprias palavras. A cor de sua pele desapareceu e o brilho em seus olhos apagou. Sozinho na casa que comprara para viver junto de sua amada ele seguia dia a pós dia sem saber o que ainda podia desejar de sua vida.
As atividades profissionais que tão brilhantemente ele executava passaram a ser desempenhadas por simples obrigação e seu sucesso profissional, antes dado como certo, agora era duvidoso.
Ao deitar Beto pegava-se admirando a aliança que ainda carregava em sua mão esquerda e lágrimas rolavam pelo seu rosto quando se recordava dos tempos em que, a qualquer momento, Hellen se levantaria da cama para trancar a porta do quarto. “É pra evitar que algo ruim entre aqui”, dizia ela, onde Beto respondia rindo “Ou saia né?”. Seu coração apertava e banhado em lágrimas saudosas ele adormecia.
Seus amigos e familiares compadeciam-se de seu estado. O rapaz sofria, era um espectro diante do que fora anteriormente e nada do que dissessem ou fizessem parecia ser capaz de mudar seu ânimo para com a vida.
Um ano se passou e como por encanto, um certo dia, Beto pareceu renascer para a vida. O trabalho que executava mecânicamente passou a ter mais uma vez o brilho de outrora. Ainda que timidamente, passou a sorrir novamente. O velho Beto estava de volta.
Ninguém sabia dizer, ainda, o motivo de tal mudança, porém os mais maldosos a atribuíam à chegada de uma bela jovem à cidade.
Seu nome era Yolanda e era unânime a opinião de que tratava-se de uma bela mulher. Vinda da cidade grande, ela era diferente das meninas locais tanto no modo de pensar quanto no de agir. Não que fosse vulgar, era apenas diferente.
Era fato de que não havia um solteirão na cidade que não pleiteasse conquistar o coração da bela mulher, mas quis o destino que os caminhos dela se cruzassem com os do viúvo Beto.
Inevitavelmente os dois se aproximaram, obra do destino, ainda com Beto usando a aliança que selara seu amor para com Hellen. O fato causava a revolta das pessoas, mas o rapaz estava tão empolgado com sua nova paixão que não se dava conta do objeto que ainda trazia em seu dedo e do significado que ele trazia.
Mais e mais os sentimentos entre os dois aumentava e chegou o dia em que finalmente Beto guardou a aliança em uma bela caixinha de jóias na gaveta da cômoda de seu quarto como se naquele instante sepultasse para sempre o amor que um dia sentira por Hellen.
Beto e Yolanda não escondiam de ninguém a relação que mantinham e as pessoas estavam até mesmo felizes em ver que o jovem inteligente e saudável tivesse voltado à viver, mesmo que a causadora do seu renascimento tivesse sido uma forasteira que eles mal conheciam.
Certa noite, ao chegar em casa, Beto adentrou seu quarto e se deparou com a gaveta da cômoda aberta. Ele averiguou o conteúdo da caixa de jóias cogitando tratar-se de um assalto mas tudo estava intacto, somente a gaveta estava aberta. Sentiu um estranho arrepio subir-lhe pela espinha ao constatar que não havia a possibilidade de alguém tê-la aberto já que a casa não tinha qualquer sinal de arrombamento e era certo de que ele não havia mexido ali, até mesmo porque já havia se esquecido completamente da aliança que ali estava guardada. O fato era bastante estranho.
Por mais duas vezes o mesmo ocorreu e Beto começou a se preocupar com o ocorrido embora não comentasse com ninguém a respeito dele para evitar que as pessoas pudessem pensar besteiras. Não podia permitir que algo do tipo pudesse pôr em dúvida suas faculdades mentais e atrapalhar seu progresso profissional. Era estranho, por certo, mas não havia explicação lógica para aquilo e mesmo assustado Beto preferiu guardar segredo.
Ceto dia, após a festa de aniversário de um primo seu, Beto finalmente levou Yolanda à sua casa para terem sua primeira noite de amor.
Talvez se a bebida não lhe afetasse os neurônios ele jamais fizesse tal coisa visto que, mesmo tendo esquecido o amor por Hellen, ainda nutria certo respeito pela jovem falecida.
Toda a casa havia sido decorada de acordo com o gosto da finada. Tudo tinha seu toque, sua delicadeza e doçura, mesmo que Beto não notasse mais isso. O encanto que Yolanda lhe impunha o cegava totalmente e qualquer um que já a tivesse visto entenderia o motivo de tal vislumbramento.
Corpos unidos em um enlace de paixão e suor. A volúpia insaciável de Yolanda certamente seria motivo de desejo para qualquer homem e as horas de amor que se seguiram foram dignas de um conto à parte...
Mas quando Beto pronunciou a derradeira frase que finalizou a relação um estrondo foi ouvido na escuridão do quarto. “Te amarei para sempre Yolanda”.
Extasiado o casal não se deu conta do forte som, que lembrava o de uma porta batendo com força e a exaustão devido às horas de prazer acabou por vencê-los fazendo com que Beto e Yolanda adormecessem abraçados.
“Te amarei para sempre Yolanda”. A frase ecoou através do conturbado sonho que Beto estava tendo até o momento em que despertou assustado com os gritos de Yolanda que, nua ao seu lado, tentava se proteger das imensas chamas que haviam tomado o cômodo.
Beto, abraçado à jovem e tentando protegê-los das labaredas, correu até a porta que era o único meio de escaparem da morte certa.
Yolanda morreu carbonizada.
Beto falecera antes, vítima de um infarto do miocárdio causado pelas derradeiras três visões que teve: a gaveta da cômoda novamente aberta, a porta do quarto que, sem explicação, se encontrava trancada e sem a chave e o vulto de Hellen que, sentada à beira da cama, por entre as chamas, fitava-o com os olhos emanando ódio e desapontamento.

18 Dezembro 2008

Conto - O Menino da Foto



Psiquiatra forense à vinte e cinco anos relatarei aqui um caso que aos olhos da justiça permanece sem explicação, mas que em meu íntimo grita forte como sendo verdade, por mais absurda que possa parecer.
Ninguém poderia imaginar que aquele rapaz algum dia poderia se encontrar naquelas condições. Ao deparar-me com ele vislumbrei olhos inocentes e perdidos, diferentes dos de tantos e tantos maníacos psicopatas que já havia tratado.
Jovem, inteligente, simpático e educado, quem convivia com ele tinha a certeza de que seu futuro seria brilhante. Infelizmente o destino havia conspirado para que todos estivessem enganados.
Trancado naquele quarto do hospital psiquiátrico ele mesmo não conseguia entender de que forma havia chegado àquela condição e era meu dever trabalhar para que tanto ele quanto a justiça pudessem conhecer a verdade.
Segundo suas próprias palavras era como ter simplesmente acordado de uma noite de sono e inexplicavelmente se encontrar naquele local sem fazer a menor idéia de como ter ido parar ali.
No início sua amnésia era total, mas com o tempo as terapias começaram a surtir efeito e as lembranças começaram a ressurgir em sua mente. Lembranças dolorosas que ele mesmo desejava jamais terem sido reavivadas. Lembranças que ninguém desejaria ter. Lembranças que revelavam uma história sem sentido algum para mim e que somente ganhava veracidade devido à emoção que exprimiam àquele perturbado rapaz. Lembranças que apenas uma mente perturbada ou frente à mais inquestionável prova poderiam ser levadas em consideração.
Ao se dar conta do que havia acontecido ele entrava em desespero e se recusava a acreditar no que havia acontecido. Assim como qualquer pessoa que o conhecera até então, ele jamais se julgou capaz de fazer aquilo de que o acusavam.
Por mais que as terapias avançassem no encontro da verdade encarcerada em sua mente elas não atingiam o ponto crucial que eu procurava chegar: o momento em que toda sua família havia sido trucidada a golpes de machado.
Mesmo com minha vasta experiência como psiquiatra forense aquele caso era-me uma incógnita que desafiava meus conhecimentos e devido à isso passou a ser uma questão de honra para mim descobrir a verdade.
Contarei o que me foi dito. Tudo aquilo que foi-me possível descobrir após meses de trabalho incansável naquele caso. Não desejo convencê-los do que quer que seja, apenas leiam o que aqui narro e tirem suas próprias conclusões.
Como já mencionei o rapaz não fazia idéia do motivo pelo qual havia sido internado naquele lugar. Lembrava-se apenas de ter ido dormir e ter acordado naquele local estranho, nada além disso. Segundo ele mesmo, era como se o sonho no qual tinha entrado assim que dormira ainda não tivesse acabado.
Não entrarei nas técnicas utilizadas para acessar tudo o que estava enclausurado em sua mente, creio não haver necessidade disso, irei direto àquilo que me foi revelado e que é o que vem ao caso pois o texto não se trata de um manual de psiquiatria.
Após alguns dias, com muito tato, revelei à ele o motivo de estar ali: a polícia havia sido acionada por seus vizinhos por causa de gritos terríveis vindos de dentro da sua casa durante a madrugada e ela, ao chegar ao local, encontrou sua mãe, seu pai, a empregada e o casal de irmãos mais novos mortos à golpes de um machado que meticulosamente estava disposto sobre a mesa da cozinha, banhado no sangue daqueles que ele vitimara. Para o horror de todos ele, o jovem, estava em seu quarto dormindo tranquilamente, com as roupas e as paredes do quarto lavadas de sangue.
Ao conhecer tais fatos sua reação imediata me causou imensa estranheza, como se aquilo tudo não o atingisse em nada ou como se não acreditasse no que eu lhe contava. O gravador que eu mantinha ligado não teve acesso à gritos de desespero que eu acreditava serem via de regra para aquele caso. Ele simplesmente me olhou com doçura no olhar e começou a me contar a história mais incrível que eu já ouví. Uma história que nem ao menos cogitei levar às autoridades por ser incrível demais para que soasse como verdade e o livrassem daquela situação terrível. Eu mesmo de imediato não pude acreditar. Mas vamos à ela:
Como tantos boatos que circulam na internet havia a história da foto de um fantasma que havia sido captado quando tiraram a foto do corredor de um casarão abandonado. Segundo diziam os locais era o fantasma de uma menina que havia sido morta no local após meses e meses sofrendo as mais terríveis barbáries por parte de seus pais e irmãos. Após seu falecimento ela fora enterrada em segredo nos fundos da propriedade e a partir de então seu espírito passou a atormentar todos aqueles que ali viviam até o dia em que todos foram encontrados mortos.
Mais uma lenda da internet que para os jovens soava como divertida mesmo sendo a foto um tanto quanto horrível.
Para ganhar status entre os colegas do colégio, como ele mesmo afirmou, resolveu imprimir a foto e com ela fazer um enorme pôster. Ele me confessou que a primeira vez em que a viu sentiu um estranho arrepio percorrer sua espinha, mas como havia prometido aos colegas medrosos ele imprimiu a foto, foi até a gráfica de seu primo, pediu que fizesse um enorme pôster com ela e decorou a cabeceira de sua cama.
A imagem assustadora tomava toda a parede. Tinha a largura da sua cama, mas seguia até o teto. Ela parecia um ímã: era impossível entrar no quarto sem ter a atenção voltada para ela.
Dentro de pouco tempo a história se espalhou, diversos jovens foram à sua casa para comprovarem com seus próprios olhos o feito do colega e logo ele se tornou uma celebridade entre os jovens, sendo apelidado de “O Menino da Foto”.
Os adultos não viam aquilo com bons olhos, afinal, sendo ou não verdade, a brincadeira era de péssimo gosto e seus pais o aconselharam a se livrar daquela imagem pavorosa após alguns dias do início da brincadeira. Ele se recusou pois era graças à foto que agora ele era conhecido, respeitado e admirado, ao contrário do que acontecia antes.
Sua mãe alegava que ao entrar em seu quarto e deparar-se com a foto tinha a nítida impressão de que a menina a acompanhava com os olhos por onde quer que ela fosse, e isso lhe causava um profundo terror, o que a fez evitar o cômodo.
Seus irmãos mais novos se queixavam de que vinham tendo pesadelos terríveis com a menina, pesadelos em que ela saía da foto e vinha até seus quartos ameaçando-os de morte. Um fato bastante estranho, ele mesmo me confessou, as duas crianças sonharem com a mesma coisa, mas não deu atenção à eles, devia ser apenas coisa de criança.
A empregada relutava em fazer a faxina no quarto pois alegava que por diversas vezes ouvia sons semelhantes à choramingos ou risos contidos ecoando baixinho pelo quarto.
Quando seu pai lhe ordenou pela primeira vez que se livrasse daquela foto ele mesmo pensou em obedecer pois não se sentia confortável com tão pavorosa imagem, mas por algum motivo acreditava ser idiotice demais as pessoas acharem que uma simples foto tirada da internet pudesse causar mal a alguém e baseado nisso acabou contrariando seu pai.
Alguns dias se passaram e quando sua avó veio visitar a família ficou horrorizada com aquela imagem agourando o quarto do neto. Confidenciou à sua filha, a mãe do rapaz, de que a história que veiculava na internet não se tratava de uma mera lenda e sim da mais pura verdade e que ele deveria se livrar daquilo o quanto antes.
Ela conversou com o rapaz, mas devido aos frutos que colhia com seu gesto para com a foto, ele se recusou a pôr um fim no motivo que o havia elevado ao patamar de celebridade regional. Como ele mesmo disse à sua mãe: isso é medo de gente velha, é besteira.
Com a negativa do rapaz o pai tomou a decisão crucial: ou o jovem se livrava daquilo ou ele mesmo o faria na manhã seguinte pois até mesmo em seu trabalho já havia ouvido piadinhas em relação à brincadeira de péssimo gosto do filho.
Odiou seu pai pelo ultimato. A atitude do coroa supersticioso o relegaria de volta ao patamar de mero mortal comum na escola. Não, ele não iria dar cabo à foto e esperaria até a manhã seguinte para ver se ele realmente teria coragem de entrar em seu quarto e se livrar da foto da menina. Enfrentaria seu pai até o último momento que pudesse, ainda que sua derrota fosse certa, ele mostraria ao pai que sabia lutar pelos seus ideais, mesmo que eles se baseassem em uma inocente brincadeira de mal gosto.
Não houve tempo para que se conhecesse o vencedor de tal embate, pois na manhã seguinte o rapaz acordou já trancado no quarto do manicômio (segundo suas próprias palavras).
Ao ouvir a história, assim como qualquer pessoa, fui levado à duas possíveis conclusões: motivado pela raiva por ter sido contrariado o rapaz deu cabo de toda a família e decidiu colocar à culpa sobre o espírito da menina da foto, baseado na lenda existente sobre ela ou então a lenda acerca da foto era verdadeira e ela, antes de ser destruída, decidiu destruir todos aqueles que se opunham é ela.
Psiquiatra que sou mantive-me atento à primeira conclusão sem dar margem à devaneios acerca de acontecimentos sobrenaturais. Mas algo em mim lutava contra a racionalidade por mais que eu me esforçasse para não dar atenção à segunda teoria.
Mais algumas semanas de terapia se passaram e nenhuma evolução foi possível. O rapaz jamais afirmou que o assassinato de sua família fora obra de acontecimentos sobrenaturais assim como jamais confessou ter sido ele o autor daquelas mortes.
Não havia traço algum em sua personalidade que me fizesse acreditar que ele tivesse matado a família, mas era loucura crer que um fantasma tivesse sido o responsável por aquelas mortes. Concordar com isso e registar na ficha do rapaz tal conclusão colocaria em cheque toda a credibilidade profissional que por anos lutei por construir.
Os laudos da perícia constatavam que não havia sinal de arrombamento na casa, somente o da porta dos fundos, ocorrido devido à invasão dos policiais. A hipótese de alguma pessoa alheia à família ter sido a autora da barbárie e ter colocado a culpa sobre o rapaz ou até mesmo sobre a imagem da foto (por mais ridícula e estapafúrdia tal teoria possa soar) estava fora de cogitação.
O que teria acontecido ali? Todos os recursos já haviam sido esgotados. Até mesmo o artifício da hipnose eu já havia empregado e a única história à qual tive acesso foi a que relatei acima, nada além disso. O jovem dizia a verdade.
Minhas noites passaram a ser intranquilas. A idéia de um fantasma ter sido o autor daquelas mortes fugia à racionalidade, ela não era passível de crédito e eu me sentia um idiota por levar tal idéia em consideração. Mas havia outra hipótese? Eu não encontrava nenhuma já que tudo levava a crer que a lenda era verdade uma vez que a hipnose revelava exatamente o que o atormentado jovem me narrara e nada mais além disso. Se ele os tivesse matado a hipnose revelaria isso, por mais que ele omitisse a verdade ou seu cérebro a bloqueasse.
As mortes haviam acontecido enquanto ele dormia e a hipnose era a prova disso uma vez que ela nada revelava. Se não havia a possibilidade de alguém ter invadido a casa e cometido os crimes só restava a garotinha da foto.
Em meu consultório acessei a internet e sem muita dificuldade vislumbrei a tão famosa foto pela primeira vez: ela realmente é aterrorizante.
Li a lenda, a mesma que o rapaz me contara embora muitas pessoas dissessem tratar-se de uma mera montagem. Isso me tranquilizou por alguns instantes, mas logo tal tranquilidade se desfez diante da minha constatação de que realmente o fantasma captado naquela imagem poderia ser o autor das mortes.
Eu dizendo uma coisa dessas? Talvez esteja ainda mais louco que o rapaz sob meus cuidados...
Perplexo comigo mesmo diante da conclusão à qual cheguei decidi ir até a casa onde tudo ocorrera e tentar pôr um fim àquela idéia absurda.
Não sabia como tal visita poderia me ajudar a desvendar aquele mistério, mas diante da ausência de qualquer outro recurso à minha disposição era a única saída que eu podia ver. O que eu poderia ver na casa que a perícia ainda não tivesse visto? Um psiquiatra, o que eu seria capaz de averiguar que os peritos não fossem capaz de fazê-lo?
Não me custava nada, apenas minha sanidade mental ser posta em jogo.
Consegui as chaves da propriedade com uma tia do jovem alegando necessitar de dados para prosseguir em meus estudos (o que jamais deixou de ser verdade).
Fui até a enorme casa que estava vazia desde o fatídico dia. Nenhum familiar jamais ousou pôr os pés no local desde que os corpos dali haviam sido retirados e nem mesmo a haviam posto à venda. Quem compraria uma casa após acontecimentos tão terríveis?
Adentrei a casa e senti o fedor do sangue ressecado vindo do patamar superior da residência. O ar estava pesado, provavelmente devido aos meses em que a propriedade esteve totalmente fechada. Cautelosamente eu caminhava pela casa vazia. Estranhamente o medo se apossou da minha alma por mais que eu lutasse para acreditar que não houvesse motivos para isso. Mas ele se fazia presente.
Subi as escadas tomando cuidado para não fazer barulho. Temia acordar alguém. Meu Deus, acordar quem? Eu tinha esse medo...
Abri as portas dos aposentos. Primeiro o dos pais, que reconheci pela mobília. Havia manchas enormes de sangue nas cobertas e a visão me deu náuseas. Rapidamente, lutando contra o vômito, fui até o segundo quarto: o dos irmãos mais novos. Não apenas as roupas de cama tinham sangue em abundância como também os brinquedos espalhados pelo chão. Todos quebrados como se uma criatura enfurecida tivesse passado por ali. A cena me causou tristeza, não me perguntem por quê, mas lágrimas correram dos meus olhos.
Finalmente cheguei ao fundo do corredor. A porta do quarto estava fechada. Fiquei alguns instantes frente à ela, paralisado. Temia algo mas não sabia o quê. Talvez a verdade. Lentamente ela foi aberta e deparei-me com a cama onde o jovem dormia enquanto sua família era trucidada pelos golpes de machado. Fiquei horrorizado como jamais havia ficado em minha vida.
Não foi o sangue que cobria as paredes e as cobertas da cama do jovem que me causaram tal horror. O que me horrorizou foi constatar que o pôster ainda permanecia ali, sobre a cabeceira da cama ensanguentada, mas com um corredor vazio como sendo o caminho para o inferno. Fui retirado da paralisia que se apossou de mim por uma funesta risada infantil que debilmente chegou-me aos ouvidos.
Corri daquele lugar trancando a porta como lutando para impedir que algo terrível escapasse daquele lugar e parti rumo ao hospital psiquiátrico onde o jovem até hoje permanece internado.
Jamais comentei com ele sobre a visita. Jamais comentei com quem quer que seja a respeito do ocorrido. Não posso e não devo alimentar a idéia de que a menina tenha sido a responsável pela morte daquela família. Não posso levar a história à justiça na ânsia de livrar aquele jovem inocente do fardo que carrega pois jamais acreditariam em mim.
Psiquiatra, experiente... sou obrigado a crer que a autora das mortes realmente tenha sido aquela menina da foto e carrego o remorso de não ser capaz de livrar aquele jovem da prisão em que permanece, por mais que eu saiba da verdade.